sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A Dupla Greve de Genebra (1869)

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Os burgueses provocam-nos. Esforçam-se para nos levar ao desespero por todos os meios, pensando, não sem muita razão, que seria muito bom para seus interesses forçar-nos a travar batalha com eles hoje.

Caluniam-nos e insultam-nos em seus jornais; desnaturam, travestem e inventam fatos, contando com as simpatias de seu público, que os perdoará tudo, desde que os burgueses, os patrões sejam inocentados e os trabalhadores caluniados. Seguros dessa impunidade e dessa simpatia, o Journal de Genève sobretudo, o devoto mentiroso, supera-se em mentiras. Eles não se contentam em provocar-nos e insultar-nos por meio de seus escritos; impacientes para fazerem-nos perder a paciência, recorrem às vias de fato. Seus tristes filhos, essa juventude dourada cujo ócio corrompido e vergonhoso detesta o trabalho e os trabalhadores; esses acadêmicos, doutos em teologia e ignorantes da ciência, esses liberais da rica burguesia, vão às ruas, como no ano passado, e amontoam-se nos cafés, armados de revólveres mal dissimulados em seus bolsos. Dir-se-ia que eles temem um ataque por parte dos operários e que se creem forçados a afastá-los.

Eles creem seriamente nisso? Não, absolutamente não, mas simulam crer para ter o pretexto de armar-se e um motivo plausível para atacar. Sim, para atacar-nos, pois, na terça-feira passada, ousaram espancar alguns de nossos companheiros que, provocados por todos os insultos, responderam por verdades bastante desagradáveis, sem dúvida, para ouvidos tão delicados quanto os deles, mas que nem sequer encostaram as mãos neles. Permitiram-se detê-los e maltratá-los durante algumas horas, até que uma comissão enviada pela Associação Internacional à Prefeitura foi buscá-los.

O que pensam esses burgueses? Querem realmente forçar-nos a ir para as ruas de armas em punho? Sim, eles o querem. E por que o desejam? A razão é bem simples: desejam matar a Internacional. 

Basta ler os jornais burgueses, isto é, quase todos os jornais de todos os países, para persuadir-se de que, se há, hoje, uma coisa que, mais do que qualquer outra, é um objeto de temor e horror para a burguesia na Europa, é a Associação Internacional dos Trabalhadores. E, como devemos ser justos, antes de tudo, justos inclusive em relação aos nossos adversários mais encarniçados, devemos reconhecer que a burguesia tem mil vezes razão para abominar e temer essa formidável associação.

Toda a prosperidade burguesa, sabemo-lo, enquanto prosperidade exclusiva, está fundada sobre a miséria e sobre o trabalho forçado do povo, força do não pela lei, mas pela fome. Essa escravidão do trabalho denomina-se, é verdade, nos jornais liberais tais como o Journal de Genève, a liberdade do trabalho. Mas essa estranha liberdade é comparável àquela de um homem desarmado e nu, que se o entregaria à mercê de um outro armado dos pés à cabeça. É a liberdade de se fazer esmagar, abater. - Tal é a liberdade burguesa. Compreende-se que os burgueses a adorem e que os trabalhadores não a suportem absolutamente; pois essa liberdade é para os burgueses a riqueza, e para os trabalhadores a miséria.

Os trabalhadores estão cansados de ser escravos. Não menos que os burgueses, mais que os burgueses, eles amam a liberdade, porque compreendem muito bem, sabem por uma dolorosa experiência que sem liberdade não pode haver para o homem dignidade nem prosperidade. Mas não compreendem a liberdade senão na igualdade; porque a liberdade na desigualdade é o privilégio, quer dizer, a fruição de alguns fundada no sofrimento de todos. - Eles querem a igualdade política e econômica simultaneamente, porque a igualdade política sem a igualdade econômica é uma ficção, uma enganação, uma mentira, e eles não querem mais mentiras. - Os trabalhadores tendem, então, necessariamente, a uma transformação radical da sociedade que deve ter por resultado a abolição das classes do ponto de vista econômico tanto quanto político, e a uma organização na qual todos os homens nascerão, desenvolver-se-ão, instruir-se-ão, trabalharão e fruirão dos bens da vida em condições iguais para todos. - Tal é o desejo da justiça, tal é, também, o objetivo final da Associação Internacional dos Trabalhadores. 

Mas como ir do abismo de ignorância, de miséria e de escravidão na qual os proletários dos campos e das cidades estão hoje mergulhados, a esse paraíso, a essa realização da justiça e da humanidade sobre a terra? - Para isso, os trabalhadores só têm um meio: a associação. Pela associação, eles instruem-se, informam-se mutuamente, e põem fim, por seus próprios esforços, a essa fatal ignorância que é uma das principais causas de sua escravidão. Pela associação, eles aprendem a ajudar-se, conhecer-se, apoiar-se um no outro, e acabarão por criar uma força mais formidável do que aquela de todos os capitais burgueses e de todos os poderes políticos reunidos. 

A Associação tornou-se, pois, a palavra de ordem dos trabalhadores de todas as indústrias e de todos os países nesses vinte últimos anos sobretudo, e toda a Europa encontrou-se munida, como que por encantamento, de uma multidão de sociedades operárias de todos os tipos. É incontestavelmente o fato mais importante e ao mesmo tempo mais consolador de nossa época, - o sinal infalível da emancipação próxima e completa do trabalho e dos trabalhadores na Europa.

Mas a experiência desses mesmos vinte anos provou que as associações isoladas eram aproximadamente tão impotentes quanto os trabalhadores isolados, e que mesmo a federação de todas as associações operárias de um único país não bastaria para criar uma força capaz de lutar contra a coalizão internacional de todos os capitais exploradores do trabalho na Europa; a ciência econômica demonstrou, por outro lado, que a questão da emancipação do trabalho não é absolutamente uma questão nacional; que nenhum país, por mais rico, por mais poderoso e por mais importante que ele seja, não pode, sem arruinar- se e sem condenar todos os seus habitantes à miséria, empreender qualquer transformação radical das relações do capital e do trabalho, se essa transformação não se faz igualmente, e ao mesmo tempo, ao menos em uma grande parte dos países mais industriosos da Europa, e que, por consequência, a questão da libertação dos trabalhadores do jugo do capital e de seus representantes, os burgueses, é uma questão eminentemente internacional. Disso resulta que a solução só é possível no terreno da internacionalidade.

Operários inteligentes, alemães, ingleses, belgas, franceses e suíços, fundadores de nossa bela instituição, compreenderam-no. Eles também compreenderam que, para realizar essa magnífica obra da emancipação internacional do trabalho, os trabalhadores da Europa, explorados pelos burgueses e esmagados pelos Estados, só deviam contar com eles próprios. Assim foi criada a grande Associação Internacional dos Trabalhadores.

Sim, grande e formidável, verdadeiramente! Ela tem apenas quatro anos e meio de existência e já abrange várias centenas de milhares de aderentes disseminados e estreitamente aliados, em quase todos os países da Europa e também da América. Um pensamento e uma empresa que produzem em tão pouco tempo tais frutos, só pode ser um pensamento salutar, uma empresa legítima.

Trata-se de um pensamento secreto, de uma conspiração? De forma alguma. Se a Internacional conspira, ela o faz às claras e o diz a quem quiser ouvi-la. E o que ela diz, o que pede? A justiça, nada além da mais estrita justiça e o direito da humanidade, e a obrigação do trabalho para todos. Se, à sociedade burguesa atual esse pensamento parece subversivo e abjeto,-tanto pior para essa sociedade.

Trata-se de uma empresa revolucionária? Sim e não. Ela é revolucionária no sentido que quer substituir uma sociedade fundada na iniquidade, na exploração da imensa maioria dos homens por uma minoria opressiva, no privilégio, no ócio, e em uma autoridade protetora de todas essas belas coisas, por uma sociedade fundada nessa justiça igual para todos e na liberdade de todos. Ela quer, em resumo, uma organização econômica, política e social, na qual todo ser humano, sem prejuízo para suas particularidades naturais e individuais, encontra uma igual possibilidade de desenvolver-se, instruir-se, pensar, trabalhar, agir e desfrutar a vida como homem. Sim, ela quer isso, e, uma vez mais, se o que ela quer é incompatível com a atual organização da sociedade, tanto pior para essa sociedade.

A Associação Internacional é revolucionária no sentido das barricadas e de uma derrubada violenta da ordem política atualmente existente na Europa? Não: Ela ocupa-se muito pouco dessa política, e, inclusive, não se ocupa absolutamente disso. Assim, os revolucionários burgueses querem-lhe muito mal pela indiferença que ela testemunha em relação às suas aspirações e a todos os seus projetos. Se a Internacional não tivesse compreendido desde há muito que toda política burguesa, por mais vermelha e revolucionária que pareça, tende não à emancipação dos trabalhadores, mas à consolidação de sua escravidão, o papel lamentável desempenhado neste momento pelos republicanos e, inclusive, pelos socialistas burgueses na Espanha, bastaria para abrir-lhe os olhos.

A Associação Internacional dos Trabalhadores, fazendo, pois, completa abstração de todas as intrigas politicas atualmente, só conhece, neste momento, uma única politica: Aquela de sua propaganda, de sua extensão e de sua organização. - No dia em que a grande maioria dos trabalhadores da América e da Europa tiver ingressado e estiver bem organizada em seu seio, não haverá mais necessidade de revolução; sem violência a justiça será feita. E, então, se houver cabeças quebradas, é porque os burgueses assim o quiseram.

Mais alguns anos de desenvolvimento pacífico, e a Associação Internacional tornar-se-á uma força contra a qual será ridículo querer lutar. Eis o que os burgueses compreendem demasiado bem, e eis por que eles hoje nos provocam para a luta. Hoje, eles esperam ainda poder nos afastar, mas sabem que amanhã será demasiado tarde. Eles querem forçar-nos a travar batalha com eles agora.

Cairemos nessa armadilha grosseira, operários? Não. Faríamos muito prazer aos burgueses e arruinaríamos a nossa causa por muito tempo. Temos conosco a justiça, o direito, mas nossa força ainda não é suficiente para lutar. Comprimamos, pois, nossa indignação em nossos corações, permaneçamos firmes, inquebrantáveis, mas calmos, quaisquer que sejam as provocações dos jovens arrogantes e impertinentes da burguesia. Suportemos ainda; não estamos habituados a sofrer? Soframos, mas não esqueçamos nada.

E, enquanto aguardamos, prossigamos, redobremos, ampliemos cada vez mais o trabalho de nossa propaganda. É preciso que os trabalhadores de todos os países, os camponeses bem como os operários das fábricas e das cidades, saibam o que quer a Associação Internacional, e compreendam que, fora de seu triunfo não há para eles qualquer outro meio de emancipação sério; que a Associação Internacional é a pátria de todos os trabalhadores oprimidos, o único refúgio contra a exploração dos burgueses, a única força capaz de derrubar o poder insolente dos burgueses.

Organizemo-nos, ampliemos a nossa Associação, mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos de consolidá-la a fim de que nossa solidariedade, que é toda a nossa força, tome-se a cada dia mais real. Sejamos cada vez mais solidários no estudo, no trabalho, na ação pública, na vida. Associemo-nos em empresas comuns para fazer nossa existência um pouco mais suportável e menos difícil; formemos em toda parte, e tanto quanto nos seja possível, essas sociedades de consumo, de crédito mutual e de produção, que, conquanto incapazes de emancipar-nos de uma maneira suficiente e séria nas condições econômicas atuais, habituam os operários à prática dos negócios e preparam germes preciosos para a organização do futuro.

Esse futuro está próximo. Que a unidade de escravidão e miséria que hoje abraça os trabalhadores do mundo inteiro, transforme-se para todos nós em unidade de pensamento e vontade, de objetivo e ação, - e a hora da libertação e da justiça para todos, a hora da reivindicação e da plena satisfação soará.
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* In.: LEVAL, Gaston. Bakunin, Fundador do Sindicalismo Revolucionário. São Paulo: Imaginário/Faísca, 2007